Posts de Fevereiro, 2008|Página de posts mensais

Segredo

Bicho que se cria
dentro da gente
Quanto mais trancado
mais consome a jaula
[pobre inocente!
Mas se soltar o bicho
ele mata é todo mundo.

Troca de papéis

Fui escrever que te amo
mas o papel me rasgou ao meio,
xingando
“ah, em minha branquidão,
não, não
tua solidão
aqui não entra”

Mania de Limpeza

Limpei também
o coração.

Ao Tom.

Como é áspero nosso amor. Ah sim, muito áspero.
Mas… Há textura que arrepie mais?

Para sempre

No papel, “para sempre” escrito de lápis.
Pode rasgar, vá lá, rasgue,
que mesmo partido no meio,
o para sempre
é para sempre.

Impermeável

Impermeável que me tornei. Não há mar que faça onda ou chuva que umedeça minha alma agora já tão seca.

O mundo sem verbo

Antes mesmo de o princípio ser o verbo, havia um mundo perdido numa galáxia perdida que não conhecia o tempo, lá tudo era eterno. E talvez por isso mesmo não houvesse o verbo. As criaturas desse mundo ou eram sempre felizes ou sempre infelizes, e mesmo as infelizes jamais questionavam tal situação, afinal, questionar não fazia parte da eternidade delas, que era, basicamente, ser infeliz. As pessoas felizes não questionavam por razões óbvias, elas se bastavam enquanto as infelizes sempre precisavam de algo a mais.
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“Ai de mim que sobrevivo sem o coração no peito. / E ondes estás, amor perfeito?”

Quando eu lhe pedi que guardasse bem meu coração, de imediato – porque chovia lá fora e lhe deu muito, muito medo do peso que poderia ter um coração encharcado – ela o tomou do meu peito e fez abrigo da sua jaqueta.
A chuva estiou. E de tanta pressa, ela foi embora levando ele aninhado por acaso junto ao seu.
Fiquei só no meio da rua: um silêncio denso preenchendo tudo, interrompido apenas pelos barulhos curiosos escutados quando todo mundo já foi dormir e você está acordado sozinho no meio d’uma madrugada intransponível.
No lugar do meu coração, um vazio daqueles que só nos dão os amores findados e os dias nublados, e a esperança que ela reviste suas roupas antes de jogá-las na máquina de lavar: quem sabe encontra a etiqueta que eu colei nele – sempre endereço tudo, em caso de perder – e pense em bater a minha porta, procurando amparo numa noite de procela… ou simplesmente para devolver aquilo que é meu.

(meu e dela.)

O que tem nela

Minha escrita não tem forma,
nem som,
nem cor.
Tem só você
e essa dor enorme
que se chama amor.

É…

Acho que essa minha falta de vontade de comer seja só o inconsciente tentando esvaziar o resto de mim. Onde você não pôde fazer por conta própria.

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