Arquivo | dezembro, 2007

O que foi?

28 dez

Ela pára e a olha profundamente nos olhos dela.
– O que foi? – A outra diz.
– Nada, estou só olhando.
Quando o que queria mesmo dizer é que estava sendo presa na imensidão daquele olhar e a cada piscada um pouco da sua própria alma era tomada pra dentro daqueles olhos. Que tudo que sentia era paz, sufoco, tranqüilidade e agitação, tudo ao mesmo tempo e tudo isso e amor, muito amor. Queria dizer que não há nada mais bonito que aquele olharzinho curioso e aqueles lábios tão macios prestes a sorrir timidamente, que esse mesmo olhar e esse quase sorriso a faziam sentir um frio na barriga, desses de montanha-russa. Que a cada fio de cabelo que ela sentia ser tocado pelas suas mãos lhe davam a maior segurança e força, que quase se sentia uma super heroína, mas sem capas ou fantasias, porque não era necessário esconder nada, aliás, era preciso o oposto, mostrar coragem, confiança, firmeza. Queria mais que isso, queria dizer tudo que sentia, que pensava e queria sonhar o futuro. Queria simplesmente dizer que a amava, mas disse apenas “nada, estou só olhando”, porque não era capaz de lançar tanto de si, ela era pequena demais e tinha medo de se acabar, de se acabar na outra.

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Janelas da alma

24 dez

Se os olhos

são as janelas da alma,

quando eu choro,

minha alma inunda?

Aos inimigos

23 dez

Digo-lhes, inimigos inconvenientes
digo-lhes que sou o vento
levo suas más ações para longe,
nada permanece em mim
como eu não pereço em nada

Digo-lhes, inimigos ferrenhos
digo-lhes que sou o mar
venham com todas suas lanças
velas, manivelas e alçapões
eu vos afundo e espremo
no meu escuro profundo

Digo-lhes, inimigos ordinários
digo-lhes que sou a terra
não plantem suas bombas em mim
pois quem dirá
quando elas explodirão
sou eu

Digo-lhes, inimigos medíocres
digo-lhes que sou o eco
lancem suas palavras,
frases mal feitas e desconexas
e eu as tornarei de volta a vós

Digo-lhes, inimigos quaisquer
digo-lhes que sou muito melhor
ou muito pior que vós
e que nenhuma arma que vier contra mim
jamais me ferirá, pois,
digo-lhes,
sou feita dos mares, dos céus,
da terra
e vós estais sempre
inferiores a mim.

Ela

23 dez

Era ela, sempre foi.

Ela sabe do meu passo errante antes mesmo de eu perceber que escorreguei.

Era ela quem me fazia correr desnecessariamente por caminhos errados só para não ter que encará-la e sentir sua presença mais próxima e mais ofuscante.

Era ela quem várias vezes me desconsertou e me fez bambear as pernas incontrolavelmente.

Era ela me chamando ao fundo de um jazz, me oferecendo uma oportunidade de entrar em seu mundo.

Era ela quem estava na minha vida muito antes de eu notar que aquilo era viver.

Era ela, sempre foi.

E viver passou a ser efetivamente o que deveria ser a partir do momento em que ela e eu passamos a ser nós.

Seu Tião

22 dez

Ô Seu Tião,
tem uma moça
te chamando no portão.

Ela é bonita,
parece prendada
e tem uma rosa na mão.

Ô Seu Tião,
essa menina morena
é quem roubou seu coração?

Ô Seu Tião,
não minta não,
isso é amor
e você fingindo que é só paixão.

Interjeição

18 dez

Se definir é limitar, liberdade não deveria ter conceito.

Luta

18 dez

                                                                             à Cacá, minha nega
Hoje a luta foi oposta,
(não é o poema que não quer
se mostrar ao mundo)
sou eu que tento segurar a rima
[por entre os dedos, as mãos
a caneta, a memória…]

E nessa luta
não sei quem ganha,
o poema está meio à mostra
e eu meio escondida.