Meia história

16 jan

Meia fotografia no chão, um retrato em preto e branco: um vestido de noiva e um sorriso partido ao meio. Talvez não seja só uma fotografia partida ao meio, talvez sejam uma história e um amor quebrados.

Conheceram-se na praça, ele andava de bicicleta e ela corria com o fone no ouvido. Toda manhã faziam isso antes de trabalhar e nunca se viram, até que um outdoor novo distraiu o rapaz que, sem querer, trombou na moça. “Perdão!”, ele disse. Ela sorriu. Deram mais duas voltas na praça e sempre que se cruzavam, sorriam um para o outro. Sentaram-se para a água, lado a lado. Falaram dos pombos, do clima, do sol. E toda manhã andavam juntos. Ele passou a correr com ela e ela comprou uma bicicleta.

O primeiro beijo ele roubou durante uma dança, no dia em que um conheceu os amigos do outro. O segundo beijo silenciou a sala. No sofá, luz baixa, poucas pessoas. Mas não durou muito, os amigos logo viram e foram atrapalhar. E certamente perceberam a luz que ia dos olhos dela aos dele. Duas semanas depois estavam namorando, caminhavam pela manhã na praça de mãos dadas, quase não conseguiam manter o ritmo com tanta vontade que tinham de se beijar.

Foram os dez meses mais incríveis da vida dela, ela disse certa vez. Ele dizia “vou me casar com esta mulher”. E três meses depois ele a convidou para jantar. Um lugar muito chique, ela diria, se já não desconfiasse do pedido. O pessoal que ia tocar violino na mesa deles furou de última hora, mas que diferença isso faria? Havia ali os dois, o amor e o anel. O anel que ele fez questão de conferir integridade inúmeras vezes e que, por via das dúvidas, ficou segurando-o durante o jantar todo no bolso do paletó. Chegou o espumante, ela tremeu, ele suava feito um porco. Foi o tempo de o garçom se retirar e ele estava lá, ajoelhado, olhando pra ela e tremendo incontrolavelmente. Quase suas palavras não saiam, mas também não era preciso que saíssem, ela sabia muito bem do que se tratava aquela cena. “Sim”, ela disse, com o maior sorriso do universo. Ele empalideceu.

Resolveram se casar logo, quatro meses depois. Marcaram a igreja, a festa, tudo como os conformes. Um mês antes do casamento ela foi experimentar o vestido, foi na loja que a tia dele indicou, afinal, era tradição da família as noivas comprarem naquele lugar. Ela foi com a melhor amiga, que a cada vestido que via, chorava mais e mais. Já ele foi com o pai no alfaiate, o primeiro pano e modelo que experimentou, levou.

Enfim, chegou a data tão esperada. Ela passou o dia todo num SPA, relaxando (se é que se pode dizer isso num momento desses). Arrumou os cabelos, sobrancelhas, fez as unhas, massagem, maquiagem e tudo mais que podia, enquanto ele suava tentando confirmar tudo, deixar tudo em ordem para a noite. Nenhum dos dois fez despedida de solteiro, embora os amigos dele tivessem pedido bastante. Eles não queriam, só queriam se casar e mudar para o apartamento que ganharam da mãe dela.

Ele chegou à igreja nervoso, tenso, de gel no cabelo e barba feita. Seu perfume se dissipava pela capela como o som do piano numa música católica qualquer. Repetiu a neura de segurar a aliança dentro do paletó. Ele estava emudecido, com os olhos fixos na porta, até que a marcha começou a tocar. Ela entrou linda, estonteante. Aquele vestido parecia carregar o céu pra dentro da igreja. Ela sorria emocionada, mas não chorou, não iria borrar a maquiagem ali, ainda havia fotos a serem feitas. Seu pai a acompanhou até o futuro marido. O fotógrafo não perdoava um só olhar. Registrou todos. E registrou também o precioso sim que ele disse enquanto ela sorria até não poder mais. Era a foto mais linda do álbum. Mandaram até ampliar para colocar em um porta-retrato no hall da casa nova.

Dois meses depois da lua de mel no Rio de Janeiro e voltaram com a vida normal, trabalho, comida, roupa e cama. Eram um casal feliz, satisfeito e amoroso. Até que algo mudou, um telefonema com uma voz anônima destruiu tudo. Aquele telefonema cujo conteúdo jamais foi revelado acabou com a felicidade daqueles dois jovens que se conheceram na praça. Ele não soube se explicar e ela até preferiu assim, sem falações. Pegou logo suas coisas e voltou para sua antiga casa. Pensou “ainda bem não a vendi, ainda bem”. Ele foi atrás dela com a foto preferida, em preto e branco, chorando e pedindo uma chance, mas ele bem sabia, ela não era mulher disso, ela não faria isso, como não fez.

Ele desistiu quando ela rasgou a foto, a foto preferida. E foi ela quem rasgou, porque havia um esmalte vermelho ali no que restou da imagem. Talvez ela tenha guardado para si o lado do retrato em que ele aparecia, talvez ela tenha colocado fogo, jogado dois quarteirões à frente ou talvez estivesse com a aliança que, muito provavelmente não calçava mais o dedo dela. E por que ele não guardou o sorriso rasgado dela? Talvez porque o dele estivesse tão mais rasgado que não precisasse de foto nenhuma para se lembrar que era completamente infeliz sem aquela mulher.

3 Respostas para “Meia história”

  1. Liulian janeiro 16, 2008 às 9:15 pm #

    Noooooossa

    Vc escreve maravilhosamente bem!!!!

  2. Ana Luiza janeiro 16, 2008 às 9:28 pm #

    Quando comecei a ler, pensei: Enfim, uma história bonita num dia chato como hoje.

    Pelas palavras, no começo do texto, pensei que ia ter um final feliz.
    O começo é lindo, mas no final fica tão triste que a vontade que eu tive foi de começar a ler de novo, parar no casamento e dar o meu final feliz a ele.

    Mas, agora, sabendo o motivo do texto, eu até olhei pra ele com outros olhos.
    =)

    Beijo, Erika!

  3. Babi janeiro 17, 2008 às 11:04 pm #

    ai,putz…adoooorooo esses textos seus!

    amo vc!

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