O mundo sem verbo

19 fev

Antes mesmo de o princípio ser o verbo, havia um mundo perdido numa galáxia perdida que não conhecia o tempo, lá tudo era eterno. E talvez por isso mesmo não houvesse o verbo. As criaturas desse mundo ou eram sempre felizes ou sempre infelizes, e mesmo as infelizes jamais questionavam tal situação, afinal, questionar não fazia parte da eternidade delas, que era, basicamente, ser infeliz. As pessoas felizes não questionavam por razões óbvias, elas se bastavam enquanto as infelizes sempre precisavam de algo a mais.

O mundo seguia sem mudanças, até que uma pessoa infeliz, por descuido, amou uma pessoa feliz.
– Mas que desarranjo dos cosmos! Como isso aconteceu? Como se já não bastasse ser infeliz por natureza, ainda terei que conviver com esse amor perdido! Afinal, as pessoas felizes se bastam e só. – disse Miro, uma das várias criaturas infelizes daquele mundo.
Mas, como todo infeliz, Miro estava redondamente enganado sobre isso. – Estar enganado é uma característica das criaturas infelizes.
Feito mágica, o verbo pousou sobre esse mundo. E com isso a eternidade foi-se embora. Afinal, o verbo não permite a inércia de nada.
As pessoas felizes então se tornaram tristes muitas vezes ao longo do dia, às vezes por dias inteiros. Dia, noite – conceitos novos que desregularam todos. Os infelizes, sádicos como são, riram da desgraça alheia, fazendo com que experimentassem a alegria, conheceram o riso.
– O verbo realmente não é fácil, quem foi que o mandou pra cá? – disse um feliz triste.
Não dava mesmo para saber quem enviou tamanha monstruosidade àquela terra. O verbo se multiplicava, infestava o mundo e em questão de poucos dias as pessoas já estavam “sendo”, “tendo”, “brigando”, “ganhando” e “perdendo”. E quanto mais verbos acumulavam, mais se matavam e mais infelizes todos se tornavam.
Miro notou que nessa disputa de verbos havia um que só ele tinha e que todos deixaram de lado. Ele não entendia bem o porquê, mas resolveu usá-lo, ainda que nesse mundo o seu verbo não apresentasse valor algum.
Miro então amou. Miro amou e teve quem o descartasse como era de se esperar, mas também, houve uns outros que guardaram com afeto aquele verbo para si. Quanto mais Miro amava, mais seu próprio estoque desse verbo aumentava, bem como outros menores, como “sorrir”, “compartilhar”, “ajudar”.
– Parece que quanto mais eu uso, mais eu tenho, que engraçado! Mas por que então será que, mesmo assim, nem todos cativam e usam esse verbo? Não entendo…
Assim sendo, Miro continuou amando. Notou também que outros verbos ruins se geravam desse: “sofrer”, “chorar”, “doer”. E pensou que talvez por isso as pessoas recusassem seu verbo e não o passavam a diante.
– Mas que diacho! Ainda que por termos matemáticos! O saldo é positivo, é sempre positivo! Há mais verbos bons que ruins! Não entendo essa gente, o que há com elas? – revoltou-se Miro.
E, do mesmo modo repentino com que os verbos chegaram naquele mundo, eles desapareceram. O mundo ficou um caos, e pior que isso, ele seria eternamente um caos. Os verbos movimentaram tudo e quando se foram não reordenaram nada.
Miro não entendeu, o verbo tinha ido embora, todo ele, de todo lugar, inclusive de seu estoque, mas reparou que no lugar havia um substantivo, não menos importante que o verbo, o amor. E aquilo bastou para ser a exceção do mundo sem verbo, tornou-se magicamente feliz, eternamente feliz.

2 Respostas para “O mundo sem verbo”

  1. Ana Luiza fevereiro 19, 2008 às 1:52 pm #

    Bom que ele não se perdeu igual muitos fazem, né!
    Amei!

    Comentando o seu comentário:
    Fazer música daquilo?
    Não, não. Seria quase uma ofensa à arte.
    Um abuso, eu diria.

  2. Cacá fevereiro 19, 2008 às 8:24 pm #

    pensou em transformar num curta? uma animação?
    ficaria muito bom.
    =* beijo

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