O quadro

25 jul

Aquele quadro torto na parede a incomodou pela terceira vez no dia. Pensou, como nas outras duas vezes, “está torto, deveria arrumá-lo.. mas nem sei pra que esse quadro está aí.” E o dia passou.

No outro dia, a mesma coisa. E assim foi durante toda a semana. Até que um amigo, numa visita rápida, quando esperou na sala que ela buscasse o livro no quarto, também se incomodou com o quadro. Tanto que a perguntou se poderia arrumá-lo na parede. Ela deixou e ele, então, ajeitou o pequeno quadro. Imediatamente os dois riram da marca de sujeira que ficou, torta, na parede. Agora esse seria o incomodo dos próximos dias.

Passou um mês e aquela sujeira ali, lembrando que toda a vida o quadro esteve torto. Arrumá-lo na parede não adiantava nada, aquela poeira toda só a fez pensar o quanto ela sempre adiou as coisas e o quanto não adiantava nada tomar alguma atitude quando já era tarde demais… sempre fica a poeira. Ela sacudiu a cabeça, tomou seu remédio, “estou louca, é só um quadro na parede… um quadro que nem sei pra que está aí” e saiu para trabalhar.

Mais tarde chegou exausta em casa, o dia tinha sido como todos os outros, difícil, sem grandes conquistas, sem sorrisos importantes. Ela se sentou no sofá, para pensar na vida.. como sempre fazia quando estava sem fé. Seus olhos desviaram o pensamento profundo sobre a vida para o quadro, aquele pequeno quadro, tão desproporcional à parede, com aquela sujeira ao lado. Levantou resmungando, pela milésima vez “não sei pra quê tenho esse quadro aí, quando não está torto, está com essa sujeira!” e caminhou em direção a ele, passos pesados, prestes a descontar naquele objeto pendurado toda a frustração do dia.

Chegou até ele, passou os olhos por aquele retrato mal pintado de um cachorro quase sorridente e tirou o quadro da parede. Antes de retirá-lo por completo, pensou “pronto”. Até que virou o quadro e viu, meio a sujeira, um escrito quase apagado: “Foi pensando em você, é sempre pensando em você”.

Ela pegou o desinfetante, o pano, limpou a parede, a moldura já tão gasta e velha, e voltou o quadro pro lugar. O deixou lá, torto. Pensou que algumas coisas na vida são meio tortas mesmo, nos dão a sensação de incomodo de vez em quando, mas são necessárias… às vezes esquecemos o porquê, mas quando nos lembramos, nos sentimos completos de novo. E ela se sentiu assim, tomou seu leite e foi dormir, rezando para que o próximo dia fosse doce.

E foi.

Uma resposta para “O quadro”

  1. juliana outubro 12, 2011 às 2:59 pm #

    que seja doce.
    como seus escritos…

    (rondando alguns blogs,
    encantada com uma porção de surpresas belas!)

    grande abraço e obrigada por ter me proporcionado o primeiro “sorriso importante” do dia. :)

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