11 de novembro de 2011

13 ago

Eu não sabia ao certo se queria ter aquela conversa, mas a comecei mesmo assim. “Ei”, “ei”.
Ela perguntou como eu estava. Bem, eu disse. Aprendi há um tempo que essas perguntas não devem ser respondidas com sinceridade, a menos que você realmente esteja bem.
Falamos sobre a vida, trabalho, sobre nada, afinal. O que tem feito? Legal, e você? Coisas assim.
Conversa vazia… Fiquei pensando, que objetivos teria ela com esse “oi, há quanto tempo”? Que objetivo teria eu rindo das suas sem gracezas? Rimos os dois, sem objetivos. Rimos dos nossos antigos amigos que se casaram, tiveram filho ou engordaram. Rimos. Rimos porque não tinhamos mais o que fazer um com a presença do outro. Era melhor rir.
Aí veio o silêncio. Não soube o que dizer, não sabia do que falar. Mas não foi preciso pensar num assunto, logo ela continuou a dizer sobre nossos conhecidos, sobre o que vivemos há uns bons anos.
Tudo o que tinhamos era o passado. Não poderiamos falar de outra coisa nem que quiséssemos, não havia nada entre nós além de um passado já muito, muito distante.
Ela contou sobre suas desilusões profissionais. Bom, todos somos um pouco desiludidos. “Mas o mundo segue”, eu disse. Ela concordou com um riso sem graça.
Veio o silêncio outra vez. Até pensei em algo a dizer, mas não sabia como chamá-la… pelo antigo apelido? E inventar um afeto que não está lá mais? Pelo nome? Obrigar uma formalidade e nos afastar ainda mais, se fosse possível?
Me calei. Ela sempre foi falante, para minha sorte. Em poucos segundos se encarregou de começar um novo assunto. Um novo assunto sobre algo velho. E ficamos intercalando risadas sem graça e silêncio, até que ela disse, afinal, “sinto saudades, sabia?”. Foi a pausa mais longa de nossa conversa. Bom, pelo menos na minha cabeça. Não sabia o que dizer, o que pensar. Eu deveria responder? Aguardei que ela continuasse, mudasse de assunto, sei lá, que olhasse para as pessoas passando com um cachorro fofo ao nosso lado, mas ela não se virou, não disse nenhuma outra palavra. Acho que entendo o quanto a eternidade pode aprisionar, sufocar. Esses segundos em que ela me olhou diretamente nos olhos foram o suficiente para eu não querer ser imortal.
“Acho que eu também”, finalmente disse.
Ela sorriu com os olhos. E levemente com os lábios, assim, meio torto, meio de lado, meio… ela.
Esse sorriso foi diferente dos outros, que eram sem graça, sem jeito, sem intimidade. Esse sorriso me empurrou ao passado. Fiquei confuso, sorri de volta.
Ela se virou para o cachorro que passava, “olha que fofo”, enquanto eu ainda não tinha voltado àquele mundo, àquele tempo, a ela me encarando, segurando sutilmente a minha mão.
Senti que deveria me decidir ali. Muito se passava em minha cabeça e mais ainda no coração. Ela tinha ido embora uma vez, porque ela não iria de novo? Aliás, por que voltou? Depois de tanto tempo… saudades? Algo deu errado? Que papel ela queria que eu tivesse em sua nova desconhecida vida? Eu a amei no passado, mas, será que eu amaria essa pessoa que estava parada ao meu lado, segurando minha mão com tanta leveza? Quem é essa pessoa de agora?
Eu não sabia responder nada a mim mesmo, fiquei parado, acho que por cerca de 1 minuto, ou até menos. Que, pra mim, novamente, se passou como a eternidade.
Ela deu um passo a frente, esticando nossos braços. Deu outro passo. Soltei sua mão. Ela se virou para mim. Percebi a interrogação em sua mente. Eu não sabia o que fazer, eu não sabia o que dizer. Eu não sabia se queria estar ali segurando a mão dela. Eu simplesmente não sabia de nada.
Ela parou e se aproximou de mim novamente, quase me abraçando. Me segurou pela blusa. “Vem!”
Eu não conseguia me mover e também não conseguia não me mover. Ela me puxou, sorrindo ainda. “Anda, vem!”
Eu não sai do lugar. Ela se juntou novamente ao meu corpo. O vento veio contra ela e percebi que seu perfume ainda era o mesmo. O seu cheiro escondeu todas as flores ao nosso redor. Aquele perfume, seu cabelo balançando irregularmente com o vento e seus olhos sorrindo. “Vem…”, ela disse mais uma vez. “Anda, vem…”
Dei um passo a frente. E outro, após outro, após outro…
Ela segurou minha mão com menos sutileza, não falamos nada até o dia se por. Não nos beijamos também. Nos abraçamos no final do dia e nunca mais a vi.
Acho que a gente precisa de uns lapsos de amor de vez em quando. Alguém que nos faça sentir amados, que nos faça amar, mesmo que por um dia ou menos. Pelo menos essa foi a única explicação que encontrei para ela ter aparecido e ido embora novamente. Talvez, na verdade, não haja explicação alguma, mas hoje me sinto contente com essa.

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